Histórias e "causos" que aconteceram com a turma do Voo Silencioso

O Saci Pererê

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               IMG-20170618-WA0027Nesse mundo sem graça de hoje, em que impera a tecnologia da internet, smartphones e o que mais existir para nos deixar um pouco mais dementes a cada dia, criaturas genuinamente brasileiras como o Saci Pererê, que todos sabem que existe e todo brasileiro que teve uma infância descente é testemunha, são tratados como criaturas surreais.

               Mas toda essa introdução é para dizer que no domingo vimos um Saci. Até filmamos esse danado. E acho que um saci nunca foi tão comemorado como esse. Então, “senta que lá vem a história”.

               O domingo amanheceu bonito como são os dias nessa época do ano aqui em Brasília.

               Chegamos à encosta por volta das 15 horas, o horário tradicional. Nesse domingo estávamos todos reunidos, até o Anderson, nosso representante nas dunas de Natal – RN estava conosco. Porém, para tristeza geral as variáveis atmosféricas não estavam conforme prevíamos pela manhã. Que decepção! Não havia vento, e quando alguma brisa soprava era sempre desalinhado.

               Antes do desanimo tomar conta de todos, percebemos que o vento estava soprando alternativamente de várias direções. Opa! Diz o manual que isso são térmicas! Então vamos sair no motor e verificar como está a condição para voo. O JR foi o primeiro e logo relatou: “Tem térmicas subindo para tudo que é lado!”.

               Em seguida Alessandro arremessou sua Alula e foi para o alto também. Eu terminei de montar o velho Spirit 100 motorizado e sai para buscar meu pedacinho de céu!

               Quando me dirigia para beirada da encosta para decolar fui pego por uma nuvem de poeira, era o Saci chegando! Aqui em Brasília aqueles redemoinhos que levantam poeira são chamados de saci. Para nós, tecnicamente era uma térmica se formando ali em cima do morro mesmo.

                     Foi nessa hora que o Anderson começou a gravar e agora temos o registro do Saci! O plano agora é vender o vídeo bem caro para a National Geographics! Aguardem o documentário.

               Para nossa surpresa, ele conseguiu capturar não só a redemoinho no solo, mas também uma fantástica imagem da térmica por baixo, sendo possível ser ver o círculo de poeira formado.

               Daí por diante foi um voo para ficar para sempre na memória. Eu subi com o Spirit 100 e lá em cima encontrei o Easy Glider do JR, a Alula do Alessandro, um pedaço de papel que havia subido com a termal e depois o modelo do Caio veio nos fazer companhia.

               Estávamos rodando para todos os lados e nada de descer. Pelo contrário, em certo momento eu estava tão alto que pedi ajuda de alguém para não perder o modelo de vista. Abri os freios butterfly e pouco a situação mudava. Decidi fazer longos círculos picando um pouco o modelo. Dessa forma, e utilizando muita paciência consegui descer a uma altura adequada. Em determinado momento do voo, como se não bastassem os presentes já recebidos até ali, um gaviãozinho decidiu me fazer companhia. Ele ficou voando em torno do aeromodelo por muito tempo. A onde quer que eu fosse ele estava atrás. Desci, subi, fiz várias manobras e nada! Lá estava ele em perseguição. Não achando pouco arranjou um amigo e agora eram dois acompanhantes!

               Passei o rádio para o JR, fui descansar um pouco, voltei, e nada do modelo descer. Todos pousaram seus modelos para descansar, e ainda voltaram a voar. Essa condição durou algo em torno de uma hora e meia. Nunca havíamos presenciado nada semelhante! Todos felizes riam de orelha a orelha! O dia foi melhor do que o esperado.

               Presentes do Saci Pererê, minha gente! O diabinho arteiro é gente boa.

               Mas calma lá, ainda não acabou. Foi possível curtir o lindo por do sol visto de cima do morro, dar boas risadas com a histórias do JR de como conseguir licença para o voo e já quase sem luz do dia eu e o Alessandro voamos nossas pequenas asas voadoras no lift daquele vento alinhado e liso de fim de tarde!

               Como prova do acontecido segue ai o inédito vídeo, as fotos e a sequencia do por do sol captado pelo Alessandro.

Vídeo

https://youtu.be/8P2Vqvapc3g

Fotos

https://plus.google.com/+VooSilencioso/posts/6FTWk9p9RV7

 

 

 

A Peleja do aeromodelista

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 20170619 102403               Se você ainda não é um aeromodelista, saiba que existe uma luta contínua desse praticante do hobby contra vários fatores que insistem em impedir que o coitado pratique seu tão amado passatempo.

               Frequentemente há alguém reclamando da esposa, da mãe, de quem quer que seja que o tentou impedir a ida para o campo justamente naquele dia em que as condições estavam mais favoráveis para os voos. Parece até que todas as famílias combinam, numa assembleia secreta, que irão perseguir os amantes do voo de modelos de aviões. É um assunto sério, pois a organização secreta funciona de forma bastante eficiente. Haja vista a frequência de intervenções.

               Um reclama: “Eu já estava com todo o equipamento no carro, quando minha mãe pediu que eu fosse ao supermercado.”, diz o outro: “Eu só tinha a quarta-feira à noite para consertar meu modelo após o acidente ocorrido na semana passada, mas meu pai lembrou-me que havíamos combinado de ir ao ensaio do coro da igreja”. Assim, de forma marota, quase inocente, pontuando as suas intervenções com eventos corriqueiros essa secreta entidade vai tentando impedir a prática do nosso hobby.

               Estudos recentes revelaram que as esposas são as vilãs quem compõe a cúpula dessa organização mundial extremamente eficiente. Fato esse bastante preocupante.

               Dias atrás, eu mesmo presenciei um ataque violento e eficiente contra um de nós. Foi penoso, não fosse uma outra característica nobre de nossa trupe: a solidariedade com os caídos. O fato foi que no último domingo nosso JR Menotti havia acordado sonhando com o vento na encosta do Morro da Capelinha, aquele vento alinhado e forte. Em sua onírica visão já experimentava as forte térmicas tão logo seu modelo deixasse a encosta. O dia seria maravilhoso. Ainda mais que no sábado havia trabalhado duro. O domingo seria de merecida folga e lindos voos. Então assim, logo cedo, nosso amigo distribuiu mensagens pelos fóruns convidando a todos a partilharem tamanha alegria.

               Queridos amigos triste foi a cena que presenciamos. Após duas horas de permanência  no Morro e sem que o nosso Menotti aparecesse, já estávamos, eu e o Caio, preocupados. Eis que chega o homem, ou o que restou dele. Bermuda de cor goiaba spice, camiseta de ir à padaria e chinelo idem. Não sei bem se ele sabia onde estava. Parecia desorientado ao descer do carro. Parecia fugido, estava assustado. Olhava para os lados como se perseguido. Após nossa acolhida, aquele ser atordoado nos relatou o acontecido: a organização secreta atuou ao tomar conhecimento de seus planos. Naquela manhã de domingo levaram-no ao supermercado para as compras da semana, vejam que violência. Não bastasse isso, desligaram seu carregador de baterias da tomada e ligaram em seu lugar uma singela chapinha de alisamento capilar. Pobre resto de homem. Não fosse a solidariedade dos amigos ao lhe passar os comandos do radiocontrole, ele não teria resistido vivo.

               Assim, em homenagem ao nosso JR cabe aqui um “viva” à bravura dos aeromodelistas, que por seu turno resistem ao contínuo ataque.

Ah, Esse Anjo da Guarda

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            Brasília é uma cidade traz o céu para perto da gente. A começar pelo seu formato de ave ou de avião, depende da imaginação de quem vê o mapa da cidade. As ruas largas, os prédios baixos, os amplos horizontes, tudo isso contribui para que nos aproximemos do imenso azul.

            Ademais, a cidade tem uma longa história com a aviação. Nos tempos da construção, o avião era o meio mais usado para se chegar e sair desses confins do Brasil. Hoje não temos a noção de como isso tudo aqui ficava longe das grandes cidades brasilerias da época. Não havia estradas, não havia infraestrutura, era o fim da linha.

            Imaginem juntar o fascínio que toda criança tem por voar com a liberdade de viver em uma cidade assim! É o ambiente perfeito para dar asas à rica fantasia infantil.

           Meu amigo Paulo Perez era uma dessas crianças que viveu na Brasília dos anos 70 e 80 e é filho de um dos primeiros aeromodelistas da cidade. Aqui um parêntese para falar do pai desse meu amigo. Rodolfo Perez nasceu em 1935 e tornou-se aeromodelista já na infância. Era um verdadeiro apaixonado pelo hobby, fazia jus ao título de aeromodelista. Não era como a maioria dos pilotos de aeromodelo de hoje, que compram tudo pronto e ficam chateados se o kit tem mais que duas peças para colar. Naquela época de ouro era bem diferente. Quase tudo tinha que ser montado do zero. Você começava o projeto de um novo modelo somente pela planta. Até parte da eletrônica tinha que ser fabricada ou montada pelo próprio aeromodelista. Era uma coisa de um certo heroísmo conseguir fazer um modelo radiocontrolado voar.

        Paulinho nos conta que sonhado em voar, certo dia se deparou com a embalagem de papelão de uma geladeira nova que seu pai comprara. Mais um parêntese: hoje em dia as geladeiras são embaladas em um saco plástico. Diga o leitor se o mundo não vai ficando mais sem graça a cada dia! Então, voltando ao ponto, aquele monte de papelão deu uma grande ideia a nosso amigo: aquilo era tudo que ele precisava para finalmente voar. Sim, agora estava fácil, pensou ele; e naquela noite quase não conseguiu dormir pensando como faria seu avião de papelão! Não seria um aeromodelo, seria um avião em escala real!

                Rapidamente chegou a um bom projeto. Não faria uma aeronave convencional para ele ir dentro. Não, pelo contrário, o seu corpo seria parte do engenho. As asas seriam amarradas em seus braços. Dois grandes retângulos devidamente curvados para garantir rigidez e perfil sustentador. Logo providenciou as amarras que prenderiam as asas em seus braços. Seriam duas cordas em cada braço, uma no punho e outra perto do ombro. O cone de cauda seria formado por suas pernas, e toda a parte de trás de um avião, que para os leigos são aquelas asinhas que ficam atrás, seriam presas a suas pernas.

                Ótimo, estava tudo decidido. O projeto estava em sua cabeça. Não havia como dar errado. Leiam ele mesmo contando a aventura e como tudo terminou:

" - Quando vi aquele papelão tão grande, me vi voando do telhado de meu prédio de três andares...

- Cortei as asas, prendi os suportes para enfiar os braços e aí imaginei que precisaria de leme e estabilizador vertical (as tais asinhas que ficam na cauda do avião).

- Vejam que eu já tinha noção de aerodinâmica!

- Pois então. Planejei prender o estabilizador nas batatas das pernas, perto dos calcanhares, e usar o movimento de flexão dos joelhos para agir como um profundor. Planejava dar uma cabrada(elevar o nariz da aeronave) na hora do pouso. Já o leme, seria montado no estabilizador e subiria entre meus pés.

- Já fazia dias que eu estava com tudo aquilo preparado e pensando num jeito de chegar ao telhado do prédio para decolar. No teto do terceiro andar havia uma clarabóia que daria acesso às duas lajes anteriores às telhas. Eu precisaria de uma escada bem alta.

- No piso térreo do prédio eu me prendia às partes do avião e treinava o voo, deitado com a barriga no chão, os braços esticados em cruz, pernas juntas e esticadas para manter íntegro o formato da aeronave, e treinava o comando de profundor para não exagerar no momento do pouso.

- Porém, numa certa manhã aconteceu algo que até hoje nunca entendi: Minhas asas desapareceram!

- Até hoje me pergunto se algum adulto fez isso, ou se foi meu Anjo de Guarda!"

                Que grande mistério, meus amigos! E está feita a crônica!

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